27/03/2014

Além da Visão | Prólogo de Milhafre.


Eu nunca estou só realmente, existe algo no ar, invisível para as outras pessoas, mas eu consigo sentir. É uma energia forte que reage de acordo com o ambiente e as pessoas que estão nele, as vezes ela sai e depois algum tempo volta, muitas vezes quando sai outra vem em seu lugar, não sei como sei que é outra, mas eu sinto que não é a mesma.
Quando saiu na rua sinto várias presenças do mesmo jeito, como se estivesse sendo observada, uma sensação estranha de perseguição, elas ficam muito distantes uma da outra, algumas parecem perdidas, outras emitem uma energia mais forte como essa que anda comigo, sinto-a como se estivesse comigo a vida toda, protegendo-me.
Como nasci com uma deficiente crônica nos olhos, nunca pude ver as cores do mundo e nunca poderei ver, não sinto falta de algo que nunca tive, mas tenho muita curiosidade para saber como seria ser igual a todos. Ando muito no meu tempo livre, em parques principalmente, gosto de sentir o vento gélido da natureza, este é o momento em que mais fico confortável já que as outras pessoas não me aceitam muito bem, como se não fosse feita para esse mundo.
Nasci em uma família de classe média, não somos ricos a ponto de termos tudo, mas nada de essência nos falta, imagino que seria muito mais difícil se fosse de outra forma, mas não posso afirmar já que nunca nasci ou pelo menos não me lembro disso. Alguns médicos na qual fui levada disseram que por ter nascido com essa privação de sentido os outros sempre foram mais apurados e por isso desenvolvi uma sensibilidade muito maior de perceber a presença de pessoas ao meu redor até uma certa distância, ele também disse que tenho um certo grau de autismo, mas que isso é normal em pessoas que nasceram em minhas condições.
Minha mãe sempre disse que nasci com um dom de ver a alma das pessoas, que mesmo sem poder ver as cores eu consigo sentir os sentimentos daqueles a minha volta. Sei que a maioria das pessoas não tem essa capacidade e por isso são céticas, na verdade acho que tirando a minha mãe, todos são céticos ao novo.

Meus pais escolheram me batizar com o nome de Caroline, mas prefiro que me chamem de Milhafre, tenho 17 anos e faltam três meses para meu aniversário, moro em Pábula uma cidade litorânea de clima muito agradável e não tenho problemas com minhas condições, aprendi muito pouco com o preconceito e o desprezo daqueles que não conseguem ou não querem me entender e eu acredito.